segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

SIMPLESMENTE VIVER


Vinte e cinco anos. Durante esse longo tempo, quase todos os dias vislumbro saindo de sua casa, não muito distante da minha, aquele senhorzinho de idade avançada, com seu traje social um tanto fora de moda, mas distinto por compreender terno, gravata, chapéu e guarda-chuva. 
Para completar seu figurino, como hábito que adquiriu ao abandonar o cigarro, nos lábios afinados e escondidos parcialmente pelo ralo bigode, um palito de dentes dançando de um canto para outro de sua boca, num malabarismo frenético que chama a atenção. 
Viúvo, apesar de ter filhos, sempre morou sozinho tendo como companhia em seu pequeno quintal apenas alguns pássaros, poucas galinhas e um galo de goela forte, cujo canto corta os ares da vizinhança várias vezes na madrugada. E tudo isso na Zona Urbana!
Pela idade avançada, oitenta e poucos anos, já se aposentou dos serviços que prestava como funcionário público e, por isso mesmo, deve ganhar uma bela e aposentadoria. 
Homem de pouca conversa, raramente se comunica com os vizinhos, mas certo dia, com um gesto de mão chamou-me para perguntar sobre um determinado livro que gostaria de ler. 
Olhando aquele homem de olhinhos esguios, ariscos e ressabiados escondidos sobre aquele par de lentes grossas, como fundo de garrafa, enxerguei o extrato de um ser humano que escolheu viver a vida, após a perda de sua esposa, da maneira mais simples que se possa imaginar. 
Detentor de cultura invejável, firme nas convicções e nas coisas da moral, fé em Deus mais que nas instituições, pensamentos lúcidos sobre política e cultura, ao invés de partilhar essa riqueza com outros, preferiu continuar na sua caminhada solitária, vivendo e brigando consigo mesmo. 
De gosto trivial na alimentação, entretanto não deixa de saborear um bom vinho, uma cerveja acompanhada de sanduíche quente feito na padaria do bairro, de dar uma parada aqui e outra ali para papear, sempre na rua ou na praça, pois que eu me lembre, nunca vi ninguém em sua casa como visitante. 
Apesar de haver aí, nesse modo de viver, algo de egoísmo e certo ar de avareza, ele simplesmente escolheu por viver a vida, um dia após outro, aceitando o que ela lhe oferece. 
Interessante, todavia, que esse desprendimento que impôs à sua vida e a alegria que sente nas pequenas coisas, o fazem sentir-se um homem abençoado e privilegiado, tal mesmo como reconhece. 
Apesar das marcantes reticências ao seu modo de vida isolado, pode-se extrair o ensinamento de como é lindo o viver cada dia da vida como um grande acontecimento, aliás, o maior acontecimento, visto que nada o supera. 
A figura excêntrica desse homem bem vivido na idade nos mostra, de maneira singela, como se deve aceitar e viver a vida, dia por dia, sem grandes questionamentos. 
É como aquele palito de dentes, que ele traz sempre nos cantos de sua boca: ele não sabe como é fabricado a partir da madeira 'in natura', a complexidade da sua confecção, como foi embalado e o trajeto até a sua mesa. Para ele importa apenas que o palito é importante ali na sua boca, em lugar do cigarro. Simplesmente assim, ele também ensina o viver! 
Não é preciso compreender todos os acontecimentos da vida e a razão de tudo, basta vivê-la!
J. Rubens Alves